A educação sexual e a Escola
January 15th, 2007 by Lisete Cerqueira
REFLEXÃO PESSOAL
A EDUCAÇÃO SEXUAL E A ESCOLA
BREVE INTRODUÇÃO
Sou professora e faz parte das minhas atribuições a leccionação de um programa de educação sexual e dos afectos que o agrupamento de escolas a que pertenço implementou em 2002. É suposto que o programa seja transversal e que a sua implementação ocorra integrada nos conteúdos específicos de cada disciplina. Não se conseguiu implementar de forma satisfatória. Esta foi uma das razões que me fez inscrever na acção “Os Desafios da Educação Sexual e Afectiva na Escola”. Esse foi o ponto de partida, mas no decorrer das sessões da acção, muitas outras questões/preocupações se formularam e me colocaram perante novos desafios. As que aqui coloco e tento responder, sem a pretensão de trazer algo de novo, apenas desejando manter o espírito aberto e a mente clara e desse modo contribuir para transmitir aos meus alunos a capacidade de reflectirem e chegarem às suas próprias conclusões, são algumas das que considero mais relevantes.
AS QUESTÕES
Quais devem ser os responsáveis por uma educação sexual que permita uma visão consciente da sexualidade, a fim de que a sua vivência possa proporcionar mais saúde e bem-estar e menos dor e sofrimento? A Família e/ou a Escola?
A resposta parece óbvia: a Família e a Escola; mas se não nos satisfizermos com respostas superficiais, então tudo fica mais complicado. Não existe uma só resposta. Teremos tantas quantas as teorias sobre a melhor forma de educar; cada uma delas assente em valores e crenças próprias das diferentes sociedades e culturas. Sempre que se fala de sexualidade está-se a tratar de um assunto que ao mesmo tempo diz respeito ao indivíduo, pois a cada um de nós cabe a escolha de como queremos viver a nossa sexualidade, mas também à sociedade, pois temos que manter o respeito pelas regras da sociedade em que estamos inseridos. Falar de educação deve ser falar da construção do indivíduo consciente, reflexivo e autónomo, cujos actos e opções se baseiam no conhecimento que tem da realidade e de si mesmo. Assim, é minha convicção que tanto a Escola quanto a Família ou mesmo a sociedade em geral, desempenham um papel fundamental na educação sexual do jovem, mas que pelas características próprias da instituição Escola, esta podia exercer um papel de grande relevância nesta matéria, ajudando os jovens a reflectirem e a descobrirem por si mesmos o modo como querem viver a sua sexualidade e a fazerem-no com segurança e de modo informado. Não acredito que à Escola caiba apenas a função esclarecedora do funcionamento fisiológico do sistema reprodutor, ou das doenças sexualmente transmissíveis. Se somos capazes de ensinar a interpretar textos líricos e obras de arte, então também devemos poder ensinar, aos jovens, conteúdos com base em informações objectivas, para que estes possam encontrar e criar os seus próprios valores e aprender a respeitá-los. Embora reconheça que esta é porventura a mais complexa de todas as tarefas pois implica que o professor seja capaz de se coibir de emitir juízos de valor ou de apresentar os seus valores como os valores.
“O objectivo da educação sexual é a promoção de uma sexualidade flexível, responsável e gratificante, ajudando as crianças e os jovens a aumentarem as suas capacidades de decisão e auto-estima ao nível sexual. Neste sentido, quanto mais cedo se iniciar, melhor as crianças aprenderão a tornar-se sensíveis às suas necessidades bem como às dos outros, a apreciar e a respeitar as diferenças inter-indivíduais e a tomar consciência das semelhanças.”
Nodin, Nuno; http://www.sentidosesensacoes.pt/texts/nuno1.html
Orientação sexual: como pode a Escola ajudar sem interferir com os valores da Família?
A educação sexual, como diz Nuno Nodin no seu artigo “O que é a educação sexual”, “se refere a todas as formas de transmissão de valores e informações sobre sexualidade, nas suas múltiplas e variadas dimensões. Inicia-se logo desde o nascimento, na forma como os pais se relacionam com a criança e nos comportamentos que os reforçam ou inibem. É veiculada em termos sociais, nas normas existentes sobre o comportamento que é considerado apropriado para os indivíduos, de acordo com o seu sexo e idade. Passa também pelas mensagens que são divulgadas através dos meios de comunicação social, como sejam a televisão, o cinema e a publicidade, mensagens que, por vezes, são contraditórias, transmitindo ideias confusas sobre o comportamento masculino e feminino em termos sexuais e sociais.”Assim, se o jovem está exposto desde que nasce a um conjunto tão variado de valores e informações, que até podem ser contraditórias, não será positivo que a Escola possa servir de meio desmistificador e esclarecedor, de forma imparcial, objectiva e informada, e desse modo ajudando os jovens a construírem a sua orientação sexual de uma forma mais segura? A orientação sexual não se esgota na escolha do parceiro sexual. São as questões do papel de género que, como as sociedades, se vão alterando; ou das normas sobre os comportamentos ( os jovens dos anos setenta do século vinte tiveram uma vivência muito distinta dos jovens deste início do século vinte e um, com regras e normas próprias da sociedade de então). Se a Escola souber manter-se actualizada poderá cumprir com o seu dever de formar jovens com ideias próprias, sem ter de se preocupar se está a interferir ou não com os valores da Família, pois também ela está sujeita a transformações e adaptações.
Como pode a escola educar para o respeito pela diferença se a própria sociedade se apresenta apenas como heterossexual, remetendo as outras formas de expressão sexual para a obscuridade?
Colocando-se um passo à frente. A educação sexual é ainda muito recente nas Escolas para se poder sentir o seu reflexo no modo como a sociedade se comporta, mas estou em crer que dentro de algumas décadas essa diferença far-se-á sentir no modo como olhamos os outros e as suas orientações sexuais. Encontrei um artigo que coloca algumas questões que me parecem muito pertinentes como forma de lançar a discussão entre os jovens (mas não só) de modo a obrigá-los a reflectir sobre estes assuntos (Val Lunn, ACW Talking Point March, 1993). A Escola pode contribuir para fazer respeitar a diferença. Pessoalmente questiono mesmo a forma como a sociedade cataloga as orientações sexuais, dividindo-as em normais (heterossexuais) e diferentes (homossexuais; bissexuais, etc.). Começa hoje a ser consensual que a orientação sexual do indivíduo se constrói/transforma ao longo da sua vida; no entanto parece-me que temos uma grande necessidade de rotular, compartimentando cada fase, como sendo isto ou aquilo, e não a entendendo como um percurso próprio de quem se vai construindo como pessoa ciente/inteligente, logo em permanente evolução/alteração.
A cultura ocidental oferece-nos mensagens muito claras quanto às expressões da sexualidade que acha correctas ou não. Todos somos criados para acreditar que a nossa sexualidade está definida de uma forma muito rígida, ao ponto de que se pensa que é heterossexual e que não se pode de algum modo sentir atraído por pessoas do mesmo sexo. O único comportamento sexual aceitável tem de acontecer inserido no contexto de um casamento heterossexual e ter como último objectivo produzir crianças. A sexualidade das lésbicas, gays e bissexuais desafia e ameaça as regras não só sobre o comportamento sexual aceitável, mas também as ideias tradicionais do que é ser feminino e masculino.”
“Não faças assunções a cerca da sexualidade das pessoas. Uma das formas em que ser lésbica ou gay difere de outros grupos oprimidos é que não é sempre óbvio quem é lésbica ou gay. Estima-se que 1 em cada 10 pessoas é lésbica ou gay. Isto quer dizer que existem lésbicas e gays na tua família, entre os teus amigos e colegas (inclusivé aqueles que se encontram casados).”
Questões
Usarias um crachá a dizer “Como se atreve a presumir que sou heterossexual? ? Se não, porque não?
Consegues pensar em três aspectos positivos da forma de vida lésbica, gay ou bissexual?
Consegues pensar em três aspectos negativos da forma de vida heterossexual?
Achas que as pessoas lésbicas, gay ou bissexuais podem influenciar as outras pessoas a tornarem-se lésbicas, gay ou bissexuais? Achas que alguém poderia influenciar-te de modo a mudares a tua orientação sexual?
Se és/fosses pai ou mãe, como te sentirias/sentes com a possibilidade de ter uma filha lésbica ou um filho gay?
Como achas que te sentirias se descobrisses que um dos teus pais ou irmãos é lésbica, gay ou bissexual?
Achas que há algum tipo de emprego que as pessoas lésbicas, gay ou bissexuais não
deveriam exercer? Se sim, quais?Se alguém de quem gostasses te dissesse “Acho que sou homossexual”, sugerir-lhe-ias ver um terapeuta?”
Val Lunn, ACW Talking Point March, 1993
O que deve/pode ser considerado normal na forma como cada um de nós vive a sexualidade?
Gabriela Moita em entrevista à KORPUS em 2003, tenta explicar/compreender porque é que a sociedade demonstra tanta incompreensão face a algumas opções de orientação sexual. “0 meu objecto de trabalho é a sexualidade em geral. Os rótulos são coisas que nos põem socialmente. Porque gostamos de pessoas do mesmo sexo, passamos a ser homos. A minha motivação de trabalho são as questões da sexualidade porque a sociedade estrutura-se através da sexualidade. Ao fim e ao cabo, são as questões sociais. Em particular, este núcleo que dicotomiza a sociedade e que a estrutura imediatamente através do sexo, porque divide logo os homens das mulheres. E ao fazer isso, distribui uma série de papéis. Cada uma dessas pessoas deve gostar por ser homem ou mulher.
Portanto, não podia deixar de focar, e abordar também, as questões ligadas às orientações”.E mais adiante continua dizendo: “Como disse, o mundo está dicotomizado e dividido entre as questões de género. Somos discriminados por sermos homens ou mulheres. Mas a discriminação torna-se ainda mais forte quando as pessoas, além de serem homens ou mulheres, gostam das pessoas do seu sexo. Portanto, tenho-me dedicado a esta área pela incompreensão das razões pelas quais essa discriminação existe.”
Gabriela Moita em entrevista à KORPUS,nº22.
Viver em pleno os seus afectos, emoções e paixões; no respeito para consigo e para com os outros; fazendo as suas escolhas em consciência e de acordo com os seus próprios valores. Não existe uma via normal na forma como vivemos a nossa sexualidade. Existem sim, muitos preconceitos e tradições religiosas que nos querem fazer crer que só há uma forma de viver a sexualidade e que todas as outras são perniciosas.
Breve Conclusão
Em Portugal temos dois pesos e duas medidas: o politicamente correcto e a prática ou realidade. O programa de educação sexual e dos afectos do meu agrupamento é politicamente correcto, mas na prática não funciona. Os professores raramente têm disponibilidade para adaptarem alguns dos seus conteúdos ao dito programa. Não se entenda que critico apenas os professores, pois não é essa a minha intenção. Critico um sistema que se esconde por detrás de programas de difícil exequibilidade para quem tem tanta falta de recursos, quer ao nível da preparação teórica, quer de tempo e espaço, para no decorrer do ano lectivo poder prescindir das suas aulas (que na maioria das vezes são insuficientes para cumprirem os programas longos das suas disciplinas) e adaptarem alguns dos conteúdos de forma a darem algo que vagamente se relaciona com educação sexual e dos afectos, sem se estabelecer um verdadeiro fio condutor entre as disciplinas para que os alunos possam estabelecer relações e daí tirarem verdadeiro partido da pluralidade de informações e pontos de vista. Esta acção teve o mérito de trazer alguma luz sobre esta temática, sobretudo na perspectiva do professor e do modo como este se deve posicionar perante o aluno. Apetrechou-nos com ferramentas simples mas eficazes: o saber colocar questões abertas, ou o tratar as dúvidas dos alunos com objectividade sem fazer juízos de valor; deu ainda a conhecer bibliografia especializada e adequada aos diferentes níveis de ensino. Colocou os docentes no seu papel de elucidadores, sem receio de dizer: não sei, mas vou procurar saber. Acredito que saímos todos com um reforço positivo da nossa assertividade e segurança no tratamento da educação sexual.
Lisete Cerqueira
Póvoa de Lanhoso, 18 de Junho de 2006
Trabalho realizado no âmbito da acção de formação “Os Desafios da Educação Sexual e Afectiva na Escola” sob a orientação da Psicóloga Leonor Alves
Cláudia wrote on 02/18/07 at 8:59 pm :
Demorou mas finalmente consegui!
Gostei do muito do post. Está objectivo, fácil de ler e foca pontos importantes e interessantes.
Vi, no final, o nome da formadora. Pertencia a algum organismo?
Pergunto porque em Dezembro de 2005 fiz uma formação sobre Educação Sexual, orientada por uma formadora da A.P.F. (Associação Para O Planeamenro da Família).
Foi muito interessante. Para além de orientações para organizar o trabalho na escola e referências bibliográficas, alargou muito os horizontes (muito reduzidos, embora pensasse que não) e proporcionou óptimas oportunidades de reflexão sobre a forma como se trabalha este tema.
Considero que teve um bom contributo porque não foram fornecidas “receitas” e novas questões foram surgindo ao longo das sessões, fazendo crescer a vontade de investir nesta área.
A formadora considerava que a Educação Sexual é feita por todos, mesmo de forma inconsciente - através de opiniões, gestos, reacções. Daí a importância do papel que diferentes agentes desempenham: Família, Escola, Comunicação Social, etc. E também que é um processo que nos acompanha desde sempre. Por isso, faria todo o sentido que já no Pré-Escolar houvesse preocupação com esta temática. Quando se fala nesta questão, muitas pessoas consideram um absurdo, talvez por se associar muitas vezes Educação Sexual a Sexo, não sei… Mas há muito mais para além disso, a meu ver - a Sexualidade, tal como também referes, vai-se construindo e evolui connosco.
Temas como os papéis feminino e masculino (haverá tarefas exclusivas de cada sexo?), a violência (e o fenómeno agora muito falado, o bulying), os afectos, a orientação sexual, a sexualidade foram referidos e discutidos e, enquanto formanda, julgo que o principal contributo (e talvez o principal objectivo) foi o tomar consciência do fosso que muitas vezes separa as nossas atitudes daquilo que sentimos e acreditamos, quer por influência da sociedade, da família ou das nossas experiências.
Outro aspecto interessante foi o ponto que focaste logo no início: “ajudando os jovens a reflectirem e a descobrirem por si mesmos o modo como querem viver a sua sexualidade e a fazerem-no com segurança e de modo informado. ” Um dos objectivos da Educação Sexual (na Escola) seria ajudar os alunos a serem autónomos e a não cederem a pressões. Ambicioso, sim, mas não creio que impossível…
Aquilo que tenho sentido, embora reflicta sobre o assunto há pouco tempo, é precisamente uma indefinição que emana das orientações que o Ministério vai fornecendo e uma linha redutora que coloca enfâse nos aspectos biológicos e fisiológicos, empobrecendo muitas das vezes as questões levantadas.
Julgo que há um longo caminho a percorrer mas que vale a pena investir e que os “dividendos” serão muito compensadores.
Agora, teriam que existir outras vontades, para além daquela de quem quer mais e melhor para a Escola.
Até 2005, a A.P.F. colaborava com as escolas na implementação de projectos de Educação Sexual: orientava reuniões com os Órgãos de Gestão, com os Professores e com os Encarregados de Educação. A partir de 2006, deixaram de ser financiados pelo PRODEP e passaram a cobrar por um serviço que até aí era gratuito.
Foi uma pena perderem-se tantas oportunidades e, fazendo a ligação com o ECD, que não haja um investimento sério na melhoria da Educação.
Bem, o comentário já vai longo - entusiasmei-me!
espero que não esteja confuso - deixei os dedos “correrem” livres pelo teclado!
Até breve - espero.